segunda-feira, 7 de outubro de 2019

ARTHUR SCHOPENHAUER (1788-1860)


(O mundo como Vontade e Representação)
"Cada vida individual é uma tragédia insignificante que termina numa morte inevitável".

(Brian Magee, pensando Schopenhauer) 

Organizado a partir de livros e da net por:
Claudio Fernando Ramos em 07/10/2019. Cacau “:¬)

PARTE I

(CONTEÚDO ESQUEMÁTICO)

1. A INFLUÊNCIA DE KANT

- A divisão que Immanuel Kant fez do mundo.

·         Schopenhauer adota essa ideia, mas dá a ela um significado muito mais dramático.

- Kant dizia: Não conhecemos as coisas como elas realmente são (númeno), apenas como elas aparecem para nós (fenômeno).

·         Schopenhauer adapta: O mundo se divide em duas realidades: Representação (o que vemos) e Vontade (o que o mundo é de verdade).

- O Véu de Maia: Expressão que Schopenhauer empresta da filosofia indiana (Hinduísmo).

·         Significa a ilusão que nos impede de ver a realidade essencial do mundo.

·         A nossa razão e os nossos sentidos criam esse "véu".

2. OS DOIS PILARES DO MUNDO

A) O Mundo como Representação

·         É o mundo que a ciência estuda, o mundo do dia a dia.

·         É a superfície da realidade.

- Como funciona:

·         O mundo existe porque existe um sujeito (nós) para percebê-lo.

·         Sem consciência para perceber, o mundo material não passaria de uma ilusão.

- As regras do jogo: Nossa mente organiza essa representação através do tempo, do espaço e da causalidade (causa e efeito).

EX: É a vida como um "teatro" ou um "sonho compartilhado".

B) O Mundo como Vontade

- A grande virada de Schopenhauer.

·         Por trás da representação, existe uma força oculta.

- O que é a Vontade?

·         Não é a "vontade humana" de querer tomar um sorvete.

·         É uma força cósmica, cega, irracional, sem fim e sem propósito que move tudo o que existe (da gravidade dos planetas ao crescimento das plantas e aos desejos humanos).

- A Vontade no ser humano:

·         Em nós, essa força se manifesta como o instinto de sobrevivência e o desejo incessante.

·         Nós somos apenas "marionetes" dessa força biológica e metafísica.

3. O PESSIMISMO SCHOPENHAUERIANO

- O Pêndulo da Existência

·         Como a Vontade é um querer perpétuo e sem objetivo, a vida humana se torna uma tragédia inevitável.

·         "A vida oscila, portanto, como um pêndulo, para frente e para trás, entre a dor e o tédio."

EX:

      [ DOR ]  <========= (A Vida) =========>  [ TÉDIO ]

  (Desejo não realizado).                                (Desejo satisfeito)

- A Dor (O Sofrimento):

·         Querer é sinônimo de falta.

·         Se desejamos algo, é porque não o temos, o que gera sofrimento.

- O Tédio:

·         Quando finalmente conseguimos o que queríamos, a satisfação dura pouco.

·         Logo a novidade passa e caímos no vazio do tédio... até que um novo desejo surja e o ciclo recomece.

4. AS TRÊS VIAS DE REDENÇÃO (COMO ESCAPAR DA DOR?)

·         Schopenhauer não era um niilista; ele apontou caminhos para diminuir ou cessar o sofrimento gerado pela Vontade.

1ª Via: A Contemplação Estética (A Arte)

- Quando contemplamos uma obra de arte (especialmente a Música, que para ele é a arte suprema por traduzir a própria Vontade), esquecemos de nós mesmos.

·         É como um anestésico temporário.

·         O desejo silencia enquanto a música toca ou enquanto olhamos um quadro, mas a dor volta assim que a experiência artística acaba.

2ª Via: A Ética da Compaixão (A Piedade)

- Quando percebemos que o outro também sofre por causa da mesma Vontade que nos castiga, o egoísmo diminui.

·         Ocorre a quebra do "Princípio de Individuação" (percebemos que somos todos parte da mesma força).

·         Sentir a dor do outro como se fosse nossa nos humaniza e diminui a agressividade do mundo.

3ª Via: O Ascetismo (A Negação da Vontade)

- Inspirado no Budismo, é o caminho da renúncia total.

·         Significa negar os desejos do corpo, jejuar, isolar-se e viver com o mínimo.

·         É a única solução definitiva.

·         Ao matar o desejo, o pêndulo para de balançar.

·         É o equivalente ao Nirvana: a paz absoluta pela ausência de querer.

PARTE II

(CONTEÚDO TEXTUAL)


SCHOPENHAUER – OBRA
·         "O Mundo como Vontade e Representação" - obra de 1818; teve uma reedição revista e ampliada lançada em 1844.

SCHOPENHAUER – O IGNORADO
·         Só depois dos sessenta - Schopenhauer só obteve reconhecimento depois dos 60 anos.
·         Magoado, mas resiliente – o desprezo dos outros o magoava, mas não o impediu de pensar de modo original.
·         Crítico do iluminismo – Schopenhauer foi contrário ao pensamento oficial de seu tempo, que desprezou e atacou em suas obras.

SCHOPENHAUER – O INFLUENCIADOR
·         Perspectiva Artística - Talvez nenhum outro filósofo tenha exercido maior influência no mundo das artes do que o alemão Arthur Schopenhauer.
·         Richard Wagner (Música) - disse ter criado uma de suas maiores óperas, "Tristão e Isolda", como reação à leitura de Schopenhauer.
·         Romancistas e Contistas (Literatura) – alguns escritores que compartilharam das ideias de Schopenhauer: Tolstoi (russo); Zola, Maupassant e Proust (franceses); Conrad (inglês); Jorge Luís Borges (argentino); Machado de Assis (brasileiro).
·         Poetas e Dramaturgos - como escritor de língua alemã Rilke e o inglês T. S. Eliot, além de dramaturgos como o inglês Bernard Shaw, o irlandês Samuel Beckett e o italiano Luigi Pirandello.
·         Filósofos e Psicanalistas - Friedrich Nietzsche; Wittgenstein; Sigmund Freud; Carl Gustav Jung.

SCHOPENHAUER – O INFLUENCIADO
·         Influência Kantiana - O ponto de partida schopenhaueriano foi a obra de Immanuel Kant, que, segundo Schopenhauer, constituiu um divisor de águas na filosofia que lhe antecedeu, a partir de Descartes.
·         O dualismo kantiano - Kant concebe o mundo de uma maneira dualista, apontando dois aspectos da realidade:
a)     O mundo suscetível – aquele que pode ser experimentado pelo homem (sujeito), o mundo dos fenômenos, que são, por assim dizer, as coisas tais quais as percebemos (ou seja, uma relação entre sujeito que percebe e objeto percebido).
b)    O mundo incognoscível - aquele não suscetível de ser experimentado, a coisa-em-si.

SCHOPENHAUER - CRÍTICA A KANT
·         Kant, a ciência como chave – segundo o alemão a ciência é a chave do conhecimento do mundo da experiência e ela não tem ação fora desse mundo.
·         Kant, a metafísica não é possível - o que se encontra além do sensível - a coisa-em-si - jamais será conhecido.
·         Schopenhauer: concordo, mas discordo – Schopenhauer compartilha visão dualista de Kant, mas a critica.
·         Schopenhauer, a causalidade é fenomênica - a coisa-em-si não pode ser causa do fenômeno, pois uma conexão de causalidade só funciona no mundo fenomênico.
·         Schopenhauer, tempo e espaço não existem – não há diferenças entre o fenômeno e a coisa-em-si; para isso seria necessário que existissem tempo e espaço, mas o tempo e o espaço são categorias que pertencem à concepção humana, ao mundo fenomênico.
·         Schopenhauer, tudo é uno - onde não há tempo nem espaço tudo é indiferenciado e uno (assim é a realidade da coisa-em-si).
·         Schopenhauer, realidade é fenômeno + coisa-em-si - para Schopenhauer a realidade também consiste em fenômenos e na coisa-em-si. A coisa-em-si, não consiste de coisas diferentes. O fenômeno é, na verdade, uma manifestação da coisa-em-si.

SCHOPENHAUER - VONTADE E REPRESENTAÇÃO
·         O Fenômeno - a mente e a consciência (razão) nos permitem ver a representação da coisa-em-si, ou seja, o fenômeno.
·         A razão independe do fenômeno – o fenômeno não tem nada que ver com a mente ou consciência.
·         Conhecer sem ser conhecido - Conhecer o fenômeno por meio da razão não nos faz encontrar o sentido do mesmo, e tampouco o do próprio sujeito que o conhece.
·         A razão insuficiente - Schopenhauer considera a necessidade de buscar, além do princípio da razão, outro caminho para a “verdade”: o do sentimento.
·         Corpo, sentimentos e subjetividades – ao aprofundar-se na subjetividade o sujeito encontra o próprio corpo submetido às leis da causalidade; a partir desse corpo é possível investigar as causas das ações humanas.
·         Vontade, mobilizadora de todas as ações – para Schopenhauer a vontade é uma força impessoal que move todas as coisas.
·         Vontade experienciável - para Schopenhauer a coisa-em-si é incognoscível, mas experienciável.
·         Vontade, o mais perto que se pode chegar do todo – vontade, Schopenhauer emprega este termo porque é a experiência direta, mais próxima que podemos ter de toda realidade. É a Vontade o motor de nossas vidas.
·         Vontades (tipos):
a)    Vontade cósmica – um “ímpeto cego”, que faz agir desde o mundo inorgânico, passando pelos vegetais e animais, chegando aos seres humanos.
b)    Vontade consciente – no ser humano a vontade, antes cega, torna-se consciente.

SCHOPENHAUER E O ORIENTALISMO
·         Schopenhauer, o Budismo e o Hinduísmo: o mundo sensível é uma ilusão - o filósofo se aproxima do pensamento oriental, hinduísta e budista, que, pela via religiosa, chega às mesmas conclusões que Schopenhauer chegou: o mundo sensível é uma ilusão que mascara uma realidade una e transcendente.

SCHOPENHAUER E BUDA - ATEÍSMO E PESSIMISMO
No momento em que um ateu aceita, mesmo remotamente, um campo que é inexplicável, ele deixa de ser ateu. Qualquer pessoa inteligente não pode descartar o mistério da vida e do universo e, portanto, não pode ser honestamente um ateu! Os chamados ateus estão, talvez, só indo contra alguns certos conceitos de Deus.

·         Buda foi um ateu?
a)     "Não" em um sentido - ele professava o vazio, o que é muito difícil para um ateu aceitar.
b)    "Sim" em outro sentido - ele não professava conceitos sobre Deus.
·         Schopenhauer e Buda eram ateus – encontro das filosofias oriental e ocidental.
·         Schopenhauer e Buda: o vazio e a vontade - para os dois pensadores, a realidade una, absoluta e transcendental eram respectivamente o Vazio e a Vontade.
·         Buda, viver sem sofrer - para Buda, o homem deve esquecer e superar suas paixões e desejos terrenos para atingir a iluminação (nirvana) e escapar ao sofrimento.
·         Schopenhauer, o mundo está repleto de injustiça e violência - a existência é uma fonte de sofrimentos.
·         Schopenhauer, o pessimismo - Para Schopenhauer este mundo é uma ilusão e não devemos nos preocupar com ele, mas sim repudiá-lo.
·          Schopenhauer, somos escravos de nossos desejos - mal satisfazemos um desejo e outro surge, de modo que vivemos permanentemente insatisfeitos.

SCHOPENHAUER: A DISCÓRDIA E O SOFRIMENTO
·         Vontade e suas consequências – a consequência do mundo como vontade é a discórdia e o sofrimento.

SCHOPENHAUER E A LIBERTAÇÃO PELAS ARTES

·         A arte que liberta - o filósofo alemão vê na arte a possibilidade de transcendência, resgatando-nos momentaneamente do suplício da existência.
·         A música como arte maior - das artes a música é a mais especial, porque nos retira:
a)     do tempo.
b)    do espaço.
c)     do nosso corpo.

SCHOPENHAUER E A ÉTICA DA COMPAIXÃO
Apesar da visão sombria sobre a existência, Schopenhauer apresenta uma visão da moral e da ética que se opõe à de Kant, aproxima-se do budismo e do cristianismo, chegando a dizer que se pode qualificar sua doutrina como a "verdadeira filosofia cristã".

·         O fundamento ético não é a razão - como nossos corpos são apenas uma manifestação fenomênica da unidade da coisa-em-si, somos indivíduos separados apenas na aparência.
·         O múltiplo é uno - no fundo, tudo e todos são um.
·         Alteridade = amor e compaixão – tudo e todos serem um nos possibilita a identificação com o outro, a compaixão e o amor, em seu sentido mais lato.

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