quinta-feira, 27 de março de 2025

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

 DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

(FILME BIOGRÁFICO- 2004)

Por: Claudio F Eamos, C@cau “:¬)23/03/2025

Ver parte da vida pretérita do famoso argentino, entes de se tornar a figura icônica da guerrilha mundial (Chê Guevara), foi deveras interessante! Isso se torna ainda mais fascinante se levarmos em conta a sensibilidade cinematográfica do excelente cineasta Walter Salles (1956 -). Diferentemente do que se poderia supor, Salles não nos apresentou, ao menos não de maneira direta, o Chê Guevara que “todos” conhecemos. No lugar do guerrilheiro marxista, Salles nos mostrou um Ernesto Guevara de la Serna (1928-1967) jovem e cordial; além disso, ele também nos revelou um estudante de medicina, um espirituoso e sonhador argentino de 23 anos de idade, oriundo da classe média. De maneira leve, divertida, mas não menos realista, o diretor nos permitiu conhecer a “gênesis” do futuro revolucionário; ou seja, a sensibilidade do homem, do cidadão, do profissional de medicina (ainda em formação) que, durante a sua trajetória pela América Latina (na companhia do amigo Alberto Granado), não deixou de ver, sentir e se importar com as dores e mazelas dos menos afortunados que viviam na região (oito meses de uma viagem que teve início em 1952). No filme percebesse a ausência de vários determinismos e/ou naturalizações morais e sociais por parte do protagonista principal. O que se quer dizer com isso? Ter nascido na classe média, ser médico em formação, ser argentino, ser branco, ser homem etc., nada disso foi fator decisivo, nem, muito menos, tornou-se obstáculo para o desenvolvimento de uma verdadeira empatia e alteridade social para com o outro. Mais do que formular teorias, fazer greves, tornar-se militante desta ou daquela causa e/ou situação, práticas muito comuns nos campus universitários da vida, Salles nos apresentou um homem que foi lenta e gradativamente transformado pela crua e impiedosa realidade dos fatos testemunhados durante a viagem. Ao final do filme, ficou muito claro que estávamos diante do início e não do fim de uma épica jornada. O filme me levou a refletir sobre os pseudorrevolucionários atuais, revolucionários entrincheirados nas universidades públicas; revolucionários armados com teses e teorias conspiratórias: sem eles é possível que não haja revoluções, mas com a revoluções que eles fazem, dificilmente alguma coisa mudará (sempre mais do mesmo). Em razão de tudo isso, senti saudades de um Chê que, infelizmente, nunca tive o privilégio de conhecer. C@cau”:¬)

 

 

 

segunda-feira, 24 de março de 2025

O TRABALHO

 O TRABALHO

O trabalho é essencial para a visão que o ser humano tem de si mesmo.

Organizado a partir de livros didáticos e da net. C@cau “:¬)24/03/2025 

VÍDEO DE APOIO: https://www.youtube.com/watch?v=C8kXG25Z2cY

TRABALHO E SOCIALIZAÇÃO

- Uma visão superficial: quando se começa a trabalhar, com responsabilidades e horários a cumprir, muita coisa muda na vida de uma pessoa.

·         O indivíduo é obrigado a aprender a se relacionar com outras pessoas.

·         O trabalho passa a ser um meio de aprendizado das relações sociais, tanto quanto uma forma de obter o sustento.

- A coisa é mais complexa: a questão do trabalho não é tão simples.

·         Dependendo de como se compreende o trabalho, e de como esse trabalho se realiza, pode-se ter uma ou outra visão de mundo.

·         É importante compreender diferentes noções de trabalho para compreender diferentes formas de socializações.

- EX: “[...] Na produção, os homens não atuam apenas sobre a natureza, mas também atuam uns sobre os outros. Não podem produzir sem se associarem de um certo modo, para atuarem em comum e estabelecerem um intercâmbio de atividades. Para produzir, os homens contraem determinados vínculos e relações sociais, e só através deles se relacionam com a natureza e se efetua a produção. [...] As relações sociais que os indivíduos produzem mudam, transforma-se, na medida da mudança e do desenvolvimento dos meios materiais de produção, isto é, das forças produtivas. [...]”

MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital. In: REZENDE, Antonio (org.). Curso de filosofia. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 178.

A ANTIGUIDADE E O TRABALHO

(Manual e Contemplativo)

- O trabalho em dois aspectos: os antigos e boa parte dos medievais o consideravam como dividido em duas partes: como trabalho manual e como trabalho contemplativo.

·         O trabalho manual era algo tido como degradante e inferior ao trabalho contemplativo.

·         O trabalho contemplativo envolvia a atividade intelectual, artística e política.

·         Aristóteles (384-322 a C.) declarou que o trabalho manual é uma atividade ignóbil.

·         Acreditava-se que o trabalho manual era causa de deformações somáticas e psíquicas.

- O trabalho e o uso de instrumentos: o trabalho manual estava vinculado ao uso de utensílios.

·         Aristóteles considerava que a obrigatoriedade do uso do utensílio tornava aquela atividade escrava dos instrumentos.

·         O trabalho intelectual, que prescindia dos utensílios, estava assim libertado.

·         O critério de autonomia (autarquia), foi para os gregos antigos muito importante para fazer esse tipo de distinção.

OBS – Autarquia: concepção grega importante que significa, em geral, autossuficiência, o governo de si mesmo, de ser o mais independente possível. Nas tradições socráticas e helenísticas, era a condição da felicidade e da paz de espírito (Ataraxia). 

- O trabalho contemplativo acima do mecânico: Aristóteles também compreendia que todas as Artes necessitam também de alguns instrumentos.

·         Não se poderia descartar as atividades manual e mecânica do conjunto das atividades humanas.

·         Para Aristóteles as atividades manuais estão submetidas às atividades contemplativas.

- EX: o construtor manual deve seguir o plano do arquiteto.

OBS – A escravidão no mundo antigo: No sistema escravista, o escravo eram os únicos que realizavam os trabalhos manuais, tal atividade passa a ser considerada objeto de desprezo pelas classes dirigentes das sociedades (Aristocracia).

A IDADE MÉDIA E O TRABALHO

(Sociedade Estamental)

- Os três estados: a posição do trabalho na IM estava de acordo com a chamada fórmula dos três estados, rigidamente hierarquizada e de pouca mobilidade social.

·         Oradores (eclesiásticos) - responsáveis pela orientação espiritual da comunidade.

·         Defensores (guerreiros, nobreza) - responsáveis pela proteção da comunidade.

·         Lavradores (campesinato, agricultores) - responsáveis pela produção.

- O trabalho artesanal: a condição de subordinação do trabalho com base nessa fórmula está mais relacionada aos lavradores do que aos artesãos.

·         As comunidades monásticas – aquelas que abdicam de bens comuns do cotidiano em prol da prática religiosa –, também realizavam esse tipo de trabalho.

·         A ação dos clérigos fez com que os medievais tivessem mais respeito pelos trabalhos artesanais manuais que os antigos.

A MODERNIDADE E O TRABALHO

(A dignificação pelo Trabalho)

- A divinização do trabalho: na modernidade o trabalho manual adquire grande valorização, passando a ser visto como uma atividade de natureza quase divina.

·         De acordo com Max Scheler (1874-1928), em  muitos povoados da Alemanha, essa valorização do trabalho traduziu-se como o hábito de trabalhar apenas por trabalhar, mesmo sem considerar seus fins.

·         Para Max Scheler e também para Max Weber, a supervalorização do trabalho manual manifesta o ressentimento que o ser humano moderno vai pouco a pouco tendo com relação aos valores vitais e espirituais.

·         Passa-se a considerar que só possui valor aquilo que é feito e adquirido pela própria pessoa por meio de esforço, cumprimento e dever.

·         O produto do trabalho é visto como uma prova de que o ser humano pode assumir papel de protagonista diante da natureza, modificá-la, controlá-la, subjugá-la.

·         A noção de trabalho passa a adquirir uma importância central e a influenciar outros valores dentro das sociedades modernas.

- A Revolução Industrial e o trabalho como técnica: ao se falar da Revolução Industrial, fala-se também do desenvolvimento da técnica ou da tecnologia.

·         A questão do trabalho muda bastante com o aprimoramento da técnica.

·         O alemão Karl Jaspers (1883-1969) procura compreender o trabalho a partir do uso da técnica.

·         A técnica surge quando o ser humano se dispõe a realizar qualquer atividade.

- O trabalho como transformação e diferenciação entre o homem e o animal: isso ocorre de três modos: como trabalho corporal, como ação de acordo com um plano e como uma característica do ser humano que o diferencia do animal.

·         Considerar o trabalho como comportamento fundamental do ser humano (Karl Marx) está ligado ao processo de humanização do mundo ao redor do homem e do próprio homem.

OBS: A valorização do trabalho está fortemente associada à Revolução Industrial

HEGEL E O TRABALHO

(Mediação entre o Mundo e o Humano)

- Hegel (1770-1831) compreende o trabalho como mediação entre o ser humano e o mundo.

·         Distintamente dos animais, o ser humano não consome imediatamente o produto que elabora por meio do trabalho, mas elabora de forma cada vez mais complexa a matéria fornecida pela natureza, atribuindo-lhe valor humano.

·         O ser humano só se realiza como tal nas necessidades que satisfaz por meio do trabalho.

·         Ao trabalhar, o ser humano se torna humano, ou seja, passa pelo processo de humanização, tanto teoricamente, por meio do trabalho intelectual, como na prática, por meio da ocupação manual.

·         O ser humano que se civilizou é aquele que compreendeu a necessidade do trabalho para sua formação.

- Divisão Social do Trabalho (não se pode fazer tudo, um depende do outro): há um crescimento infinito das necessidades e a concepção da divisão social do trabalho, que tem por consequência a divisão de classes.

·         A divisão social do trabalho facilita o trabalho e aumenta a produção, mas também aumenta a especialização e as desigualdades – o que faz com que o indivíduo passe a depender cada vez mais do conjunto da sociedade.

·         A especialização tira a necessidade de se aprender a realizar várias tarefas, de modo que o indivíduo se vê obrigado a depender dos outros para que realizem trabalhos que ele mesmo não sabe mais fazer.

OBS: O avanço da técnica gera a substituição das pessoas pelas máquinas.


KARL MARX E O TRABALHO

(Trabalhando o homem humaniza-se)

- Os temas de Hegel são aceitos por Karl Marx, que passa a desenvolvê-los.

·         Para Marx, os seres humanos começam a se distinguir dos animais quando começam a produzir seus meios de subsistência.

·         Trabalhando, os indivíduos produzem indiretamente sua própria vida material.

·         O trabalho não é apenas o meio de subsistência, mas sobretudo a própria realização e a produção da vida humana.

·         O trabalho não é uma condenação para o homem, mas o próprio homem, modo específico de existir, de se fazer humano.

·         Por meio do trabalho, o indivíduo percebe-se como um ser social.

·         Pelo trabalho, a natureza torna-se uma extensão do corpo humano, por meio do qual o ser humano pode tomar consciência de si mesmo.

- Trabalho alienado: só há humanização por meio do trabalho não alienado, isto é, que não é uma mercadoria.

·         No capitalismo, surge o confronto entre a personalidade do proletário como indivíduo e o trabalho como condição de vida, que lhe é imposta pelas relações, e das quais não participa mais como ator, mas como objeto.

·         As relações de trabalho e produção constituem a estrutura autêntica da história, de onde são refletidas as diversas formas de consciência.

·         A visão de mundo do ser humano está totalmente vinculada à maneira de produzir sua subsistência.

·         A consciência humana estaria vinculada ao modo como trabalha e produz sua subsistência, segundo tese clássica de Marx.

·         É por meio do trabalho que o ser humano pode se libertar da natureza e ser protagonista de sua transformação.

OBS: O trabalho reflete e fundamenta, a visão sobre o papel do ser humano em sociedade.

 

sábado, 15 de março de 2025

GILBERTO FREYRE (1900-1987)

GILBERTO FREYRE (1900-1987)

Material adaptado a partir de livros didáticos e da net. C@cau “:¬)15/03/2025

VÍDEOS:

https://www.youtube.com/watch?v=fRnUhvFzG2c

https://www.youtube.com/watch?v=4ivp18oNVAM

INTRODUÇÃO

- A busca pela identidade nacional é um dos temas fundamentais da sociologia brasileira.

- A sociologia moderna brasileira começa a dar frutos a partir das primeiras décadas do século XX.

- Uma certa sociologia de caráter brasileiro começa a se formar a partir da obra do seguinte pensador:

·         Gilberto Freyre (1900-1987) - Casa-grande & senzala (1933)

- As obras são clássicos fundamentais para compreender a formação da realidade brasileira, assim como o diagnóstico necessário para avaliar nossos aspectos positivos e negativos.

BIOGRAFIA

 - Nasceu em Recife, Pernambuco, onde recebeu uma alta educação, aprendendo francês, latim e grego.

·         Em 1918, mudou para os Estados Unidos, para estudar Literatura e Sociologia.

·         Nesse período, fez uma pesquisa sobre a situação dos negros e dos mexicanos marginalizados na sociedade americana.

·         Viajou por outros países, sobretudo da Europa, adquirindo conhecimento das principais correntes intelectuais e artísticas daquele continente, até retornar ao Brasil em 1924.

·         Em 1928, tornou-se professor de Sociologia da escola normal do estado de Pernambuco.

·         Publicou, em 1933, sua obra mais famosa e importante, Casa-grande & senzala.

OBS - Outras obras: Sobrados e mucambos (1936), Ordem e progresso, O mundo que o português criou, Vida Social no Brasil nos meados do século XIX etc.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE I

(Evitava as generalizações)

- A importância de Gilberto Freyre está em sua inovadora metodologia científica.

·         Influenciado pelo antropólogo Franz Boas (1858-1942), valorizava a necessidade de pesquisa empírica detalhada, evitando grandes generalizações.

·         Apesar dessa importante influência, desenvolveu seu método próprio, baseado na interdisciplinaridade, isto é, estudar a realidade social usando os métodos da Economia, da Sociologia, da cultura e da Psicologia de forma integrada.

·         Para compreender a sociedade, é preciso levar em conta sobretudo áreas que se influenciam umas às outras, sobretudo a natureza, a psique e a cultura.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE II

(Distância de Karl Marx)

- Gilberto Freyre se afasta do método da leitura marxista da realidade social, que irá dizer basicamente que os fenômenos culturais são resultados das condições e estruturas econômicas.

·         Essa é fundamentalmente a tese do materialismo histórico.

·         Freyre considera que tal premissa exagera em generalizações.

·         Ainda que a influência da técnica e da produção econômica seja fundamental, é uma influência que está sujeita à reação de outras realidades.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE III

(Livros, não dissertações)

- Para conseguir colocar em prática seu método, escrevia sobretudo livros, em vez de dissertações acadêmicas.

·         Escritor exemplar, tinha paixão pelo detalhe e pela minúcia descritiva, usando técnicas de literatura para explicar a realidade social, em um estilo literário excepcional.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE V

(Antropologia: diferenciou raça de cultura)

- Por meio dos estudos de Antropologia, Freyre foi capaz de diferenciar a raça da cultura, separando as relações genéticas e sociais da herança cultural e do meio.

·         A primeira crítica de Freyre foi em direção ao pensamento sociológico em voga na época, segundo o qual haveria uma relação entre o “atraso” cultural dos negros, indígenas e mestiços e sua herança genética.

·         Grande parte do esforço da sociologia de Freyre é de criticar tal concepção, diferenciando raça de cultura (ver Franz Boas).

·         Para Freyre é equivocada a ideia segundo a qual a cultura negra, indígena e mestiça é atrasada.

·         Elas não apenas possuem riquezas próprias, como também contribuíram de forma positiva e decisiva para a formação cultural brasileira.

OBS - Misturar não enfraquece: Freyre combateu a concepção segundo a qual a miscigenação “enfraqueceu” o povo brasileiro, sendo uma das causas do “atraso da nação”, chegando até a defender a eugenia.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE VI

(O lusotropicalismo)

- Um dos conceitos fundamentais retirados do método de Freyre é aquele por vezes chamado de lusotropicalismo, que se refere à herança portuguesa nos brasileiros.

·         Os portugueses já eram um povo relativamente miscigenado, formado por celtas, visigodos, romanos, mouros e semitas.

·         Fruto dessa miscigenação, entre outros aspectos, o português é mais liberal e tolerante que os saxões etc.

·         Os portugueses também tinham uma vocação mais ecumênica que os protestantes do Norte à época.

·         Esse fator ajudou na interpenetração das culturas que passou a existir no Brasil.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE VII

(O negro)

“[...] Basicamente o que une os autores referidos (Sociologia no Brasil contemporâneo) é a preocupação em analisar a “formação do Brasil”.

CARDOSO, Fernando Henrique. Pensadores que inventaram o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 10. 

- Gilberto Freyre mostra que a suposta inferioridade negra era, na verdade, não fruto de fatores genéticos, mas resultado da escravidão, que não permitiu que o negro desenvolvesse todo o seu potencial cultural e humano.

·         A incorporação do negro influenciou muitos hábitos e costumes.

·         A histórias dos portugueses eram contadas pelas escravas negras, que, ao fazê-lo, introduziram elementos de suas próprias culturas. Assim, a língua passou por transformações.

·         Do ponto de vista da religião, o catolicismo incorpora alguns santos negros: São Benedito e Nossa Senhora do Rosário.

OBS – O Brasil semifeudal: a relação entre brancos, negros e indígenas se deu em uma sociedade latifundiária e de monocultura, gerando uma sociedade semifeudal: uma minoria de brancos dominando de forma patriarcal, a partir das casas-grandes, não só os escravizados, mas também os lavradores e os agregados.

OBS – Nem todos eram maus: Freyre acredita que inda que muitos portugueses tenham vindo ao Brasil como degredados, isso não quer dizer que fossem de forma geral assassinos, corruptos e ladrões.

OBS- A unidade a partir dos Jesuítas: Freyre mostra que os jesuítas foram fundamentais para dar unidade religiosa a um povo tão miscigenado e evitar guerras (entre católicos e protestantes).

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE VII

(A mobilidade social)

- O latifúndio e a escravidão, isto é, a casa-grande e a senzala são os pilares da ordem social que formou o Brasil em sua origem.

·         As estruturas sociais e econômicas não são apresentadas como o horizonte exclusivo da ação social, inerte e imóvel, mas como processos móveis, vivenciados e, portanto, modificados pelas pessoas, movidas por suas emoções.

·         O que acontece no dia a dia pode sim mudar as estruturas sociais.

OBS – A dinâmica da linguagem: no caso da língua portuguesa, ela nem se entregou completamente à forma como era falada nas senzalas, nem se enrijeceu como os jesuítas professores de gramática gostariam.

A IMPORTÂNCIA DE FREYRE IV

(Criticado: democracia racial)

- Conhecia bem a sociologia americana e a europeia e distanciou-se tanto das correntes progressistas e marxistas que recebeu muitas críticas de ambos os lados.

·         Para Freyre, a miscigenação não é apenas um problema; na verdade, é a expressão de um fator cultural positivo do Brasil: a capacidade de equilibrar e sintetizar diferenças.

·         O Brasil passa assim a ser nessa área, sem deixar de lado seus graves problemas, uma espécie de modelo social para as sociedades que procuram resolver seus impasses de integração social.

“A força, ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza de antagonismo equilibrados [...]. Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-americano, duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o ex-escravo. De modo nenhum. Somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e experiências diversas; quando nos completarmos num todo, não será com o sacrifício de um elemento a outro”.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 48. ed. São Paulo: Global, 2003. (adaptado).

OBS – A democracia freiriana: críticos costumam dizer que Freyre suavizava a colonização, romantizando-a até. De forma equivocada, algumas pessoas atribuem ao pensamento de Gilberto Freyre o conceito de democracia racial, ideia segundo a qual a miscigenação acabou com as diferenças, gerando total mobilidade social.

 

quinta-feira, 6 de março de 2025

SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA

 SOCIOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Adaptado de livros didáticos, C@cau “:¬)06/03/2025

VÍDEOS:

https://www.youtube.com/watch?v=9EZ18Kw8at4

https://www.youtube.com/watch?v=VC9jUVFCM-I

https://www.youtube.com/watch?v=UlhhgBiCz7M

TEÓRICOS

- Talcott Parsons (1902-1979); Robert King Merton (1910-2003); Peter Berger (1929-2017); Thomas Luckmann (1927-2016)

INTRODUÇÃO

Enquanto as ciências duras definem e quantificam os seus objetos, a Sociologia ainda discute os seus métodos.

- A Sociologia, como campo de investigação e metodologia própria, surgiu no século XIX.

·         A complexidade das Sociedade Humanas “obrigou” os sociólogos a ajustarem e criarem métodos para compreender, de forma mais verdadeira possível, o objeto social.

- Ainda que as sociologias clássicas tenham sido importantes para estabelecer o conteúdo e os métodos de estudo, outras concepções foram desenvolvidas posteriormente, já no século XX.

·         Alguns tomaram os clássicos como base; outros foram por outros caminhos.

·         Apesar das diferenças dos métodos, é preciso sempre considerar o que une as diferentes sociologias.

ESTRUTURALISMO FUNCIONALISTA

- Talcott Parsons (1902-1979) foi um dos sociólogos americanos mais influentes do século XX.

·         Professor em Harvard, seu objetivo era criar uma metodologia que se opusesse ao empirismo e ao Positivismo.

·         Fundou assim o método do estruturalismo funcionalista, juntando os métodos de Max Weber (que buscava entender o sentido das ações de um indivíduo) e Émile Durkheim (que defendia que as ações humanas eram influenciadas por fatores externos).

 

- Parsons procurou formular uma teoria geral da ação social; uma teoria geral para explicar o comportamento das pessoas em sociedade.

CATEGORIAS CRIADAS POR PARSONS:

- Adaptação: procura entender as relações entre os meios e as finalidades das ações sociais.

·         A adaptação pressupõe que deve haver respeito a certas normas por parte dos indivíduos dadas pelo próprio meio social.

·         É o estudo da adaptação do indivíduo aos meios sociais.

- Realização dos fins coletivos: é o estudo dos objetivos que o conjunto social procura realizar.

·         Assim como o estudo dos membros desse conjunto que realizam tal ação.

- Integração: procura deixar explícitas as unidades que compõem um sistema social.

·         Explicar como cada uma das partes se relaciona umas com as outras de modo a entender como tal conjunto se mantém coeso.

- Manutenção dos modelos de controle: visa ao estudo daquilo que assegura a estabilidade das normas e dos valores.

COESÃO SOCIAL

- As quatro categorias de Parsons se relacionam com o conceito clássico de sociologia da coesão social.

·         A coesão social refere-se ao grau de identificação que os indivíduos possuem com o sistema social no qual estão inseridos.

·         Se se identificam com ele, se se sentem dispostos a apoiá-lo no que diz respeito às normas, valores e crenças.

COESÃO SOCIAL E DURKHEIM

- Segundo Durkheim, o grau de coesão varia de acordo com o modo que o sistema social é organizado.

·         Durkheim explica a coesão social por meio dos conceitos de solidariedade mecânica e orgânica.

COESÃO SOCIAL E PARSONS I

- Segundo Parsons, a coesão social ocorre pelo consenso geral sobre os valores.

·         Esse consenso se dá por meio de instituições socializantes, sobretudo a família, a escola e a mídia.

·         Para ele, ainda que haja um consenso geral, há também consensos em subgrupos da população.

·         Desse modo, o consenso nem sempre significa que alguns valores sejam, de fato, o melhor para o interesse de toda a sociedade.

·         O consenso pode refletir poder de alguns grupos e moldar toda a sociedade de acordo com seus próprios interesses.

OBS 1: Parsons faz referência às sociologias de Karl Marx e Max Weber, segundo os quais a coesão e a ordem só vêm por meio do domínio de instituições como o Estado.

COESÃO SOCIAL E PARSONS II

- Estuda a primeira infância, como se constroem as primeiras relações com o mundo.

·         Nessa fase, a relação com a mãe, que Parsons chama de fusão, é essencial.

- Somente depois dessa primeira etapa é que a criança pode entender as primeiras restrições morais, de modo a controlar as próprias pulsões e se situar no meio familiar.

·         A mediação exercida pelo pai também é essencial, uma vez que ele é aquele que encarna os valores sociais, de modo que oferece à criança o acesso ao mundo extrafamiliar.

- A entrada na escola constitui outro momento essencial da socialização, uma vez que a integração depende dos resultados escolares, determinado aos olhos da escola, do grupo e de si mesmo.

·         Por um lado, a escola valoriza os desempenhos, por outro, a amizade e o coleguismo são inerentes ao processo de socialização escolar.

PARSONS E OS ESTÁGIOS HUMANO

- Apesar das críticas, o pensamento de Parsons se assemelha ao de Comte, porque considera que a história humana possui três estágios:

·         Primitivo – a escrita como razão da passagem do primeiro para o segundo.

·         Intermediário – a emersão do Direito como passagem para o moderno.

·         Moderno – o Direito Institucionalizado como marca da modernidade.

- Para Parsons as sociedades seguem etapas que transformam suas relações sociais:


PARSONS CRITICADO

- Uma crítica ao método de Parsons é sua tendência a desvalorizar o papel da ação individual.

·         Compreender a ação individual acaba se resumindo a entender como a pessoa adota os sistemas sociais existentes.

·         Isso esvazia o conflito entre indivíduo e sociedade, em nome da integração social, e acentua a ordem e a ideia de consenso.

ROBERT KING MERTON E O FUNCIONALISMO REVISTO

(Teoria geral da anomia)

- Robert King Merton (1910-2003), professor da Universidade de Colúmbia, Nova York, foi um dos continuadores da obra de Parsons, embora tenha feito releitura e crítica da tradição funcionalista.

·         Merton procurou manter distância do Positivismo, que segundo ele estudava os fatos puros, acabando por focar demais nos detalhes e perdendo a noção do conjunto social.

·         Manteve distância das grandes teorias, porque considera que são muito abrangentes e que perdem os detalhes do meio social.

SOCIOLOGIA DO DESVIO DA NORMA

- Merton procurou um meio-termo entre as tendências clássicas, com a sua chamada sociologia do desvio da norma, segundo a qual há maior ou menor adaptação do indivíduo ao meio.

·         Merton possui uma nova noção de anomia, que havia sido desenvolvida por Durkheim.

·         A anomia, para Merton, ocorre quando não há uma harmonia entre os objetivos culturais que os membros da sociedade perseguem e os meios de que esses membros dispõem ou não para realizar tais objetivos (os meios são definidos pela sociedade).

- Ainda que a ideologia das classes abertas e da mobilidade social se esforce para negá-lo, para aqueles que estão situados nos níveis mais baixos da estrutura social (não só para estes), a civilização impõe exigências contraditórias.

·         Essa tensão pode levar justamente ao desvio de norma.

O QUE É ANOMIA?

- A anomia é uma situação social caracterizada pela falta de coesão e ordem, sobretudo em se tratando de normas e valores.

·         Há vários motivos para uma situação de anomia, como leis arbitrárias ou falta de leis que regulem novos comportamentos.

·         A anomia ocorre quando o sistema de leis está completamente separado dos valores dos indivíduos, de maneira que as pessoas passam a se preocupar muito mais com os próprios interesses do que com os interesses da comunidade.

DURKHEIM E A ANOMIA

- Durkheim desenvolve esse conceito a partir de uma situação específica: as taxas de suicídio eram mais altas em países protestantes do que nos católicos.

·         Segundo ele, isso ocorreria porque a cultura protestante atribui muito mais valor à autonomia e à autossuficiência individual.

·         Dessa maneira, seria menos provável que as pessoas desenvolvessem tipos de laços comunais, que poderiam ajudá-las em situações de crise emocional.

·         Há uma dualidade entre aquilo que o indivíduo se vê na obrigação de atingir e os meios de que dispõe para isso: o sucesso material.

TIPOLOGIAS DE MERTON

- Merton estabelece uma tipologia capaz de analisar os diferentes tipos de adaptação às normas/desvios:

O conformismo - é o modo de adaptação mais comum, e é o que garante a estabilidade da ordem social.

·         Aqui a pessoa partilha dos objetivos dados pela sociedade – como também dos meios para atingi-los.

A Inovação - é uma atitude daquele que partilha dos objetivos que a sociedade impõe, mas não os meios.

·         Ex - Al Capone, como aquele que aceita os objetivos – ficar rico – mas por meios ilícitos, não aceitos.

O Ritualismo - ele acontece quando a pessoa renuncia aos projetos de sucesso social, reduzindo suas aspirações iniciais.

·         Mas isso não torna a adesão às normas sociais mais fracas; ao contrário, elas são aceitas com mais vigor ainda.

·         Não são questionadas, mas reforçadas pelo ritualismo das ações.

·         Ex - a classe média baixa e o burocrata, pelo seu zelo quase sacro pelo regulamento e pelas normas.

A Evasão - consiste em um modo de ação relativamente raro.

·         São os indivíduos que se colocam fora da sociedade, fogem das obrigações que lhes parecem insuportáveis.

·         Ex - o “vagabundo”, personagem de Charles Chaplin.

A Rebelião - a pessoa não aceita os objetivos, nem as normas, mas, em vez de evadir-se, cria novos objetivos e novas normas.

·         A atitude na rebelião geralmente é acompanhada de adoção de comportamentos revolucionários, para superar a estrutura social.

·         Essa análise procura explicar as maneiras diferentes do indivíduo de se posicionar diante de normas, que podem ou não ser legítimas, como também o comportamento dele e sua relação no grupo e também na hierarquia social.

O QUE É CONSTRUTIVISMO?

- O construtivismo é um método que procura compreender a sociedade não como uma realidade em si, como uma coisa, ou algo objetificado, mas como uma entidade viva, que se compõe de atores individuais e coletivos em diferentes situações, em constante desenvolvimento.

·         Sob o ponto de vista construtivista, a sociedade está em permanente construção, de modo que é preciso dirigir a atenção de estudo para situações mais concretas.

·         As ações sociais estão em um mundo social, que por sua vez resulta da construção das primeiras e vice-versa.

CONSTRUTIVISMO: DIVERSOS GRUPOS DE TEORIAS

- Em geral, essas teorias rejeitam a separação circunscrita entre indivíduo e sociedade.

·         Consideram que indivíduos e sociedade estão em permanente cooperação e troca.

·         Indivíduos não significam muito fora da sociedade em que se desenvolvem, do mesmo modo que a sociedade não pode ser considerada uma entidade estática completamente separada de seus componentes ou indivíduos.

·         Para as teorias construtivistas, a ordem social aparece mais frágil.

·         Os papéis sociais já não são mais tão evidentes e fixos, necessitando de um trabalho de legitimação, assim como as próprias instituições, que estariam em constante transformação.

·         O indivíduo transforma a sociedade como esta transforma o indivíduo.

·         Desse modo, a dimensão subjetiva (indivíduo) e a dimensão objetiva (instituições) constroem-se mutuamente.

TEÓRICOS CONSTRUTIVISTAS

(Socialização Primária e Secundária)

- Peter Berger (1929-2017) e Thomas Luckmann (1927-2016), publicam a obra “A construção social da realidade” 1966, em que estudam o processo pelo qual os indivíduos se esforçam para compreender o sentido de sua ação social.

·         Procuram explicar como os atores sociais ordenam sua experiência com os outros membros da sociedade, dando-lhes um sentido.

·         Argumentam que isso ocorre por meio de estoque social dos conhecimentos – uma criação de referências a partir da repetição das ações cotidianas, que procuram ajustar a ação ao contexto da situação.

·         Essa coleção de referências também pode ser chamada de costume, de importante aquisição sociológica e psicológica.

·         O costume é um estreitamento de escolhas.

·         Ex - há várias maneiras de realizar algo, mas, na prática, isso se reduz a poucas possibilidades.

·         Ex - o costume libera o indivíduo do peso de todas as decisões, isto é, de todas as possibilidades para realizar alguma ação.

- O costume também se expressa por meio de esquemas classificatórios, que permitem encontrar semelhanças, tipificar um lugar-comum, de modo a orientar a ação social.

·         Ex - “homem”, “europeu”, “sul-americano”, “mulher”, “comprador”, “vendedor”, “tipo jovial” etc.

·         Todos esses esquemas fornecem um estoque de conhecimento para decifrar o real e permitir ações sociais.

·         Ex - o “padeiro” talvez seja, como o vizinho, apaixonado por futebol; seu filho pode estar em recuperação na escola, assim como o filho do vizinho.

- Assim, “padeiro”, “professora” etc. são tipificações permitidas também pela linguagem.

·         É a linguagem que permite a capacidade de partilhar referências.

·         Ela cria uma imagem que reúne dados mais ou menos suficientes para estabelecer uma relação social.

·         Essa tipificação não é um reflexo completo da realidade.

·         O padeiro continua sendo um padeiro, mas não apenas isso.

- Berger e Luckmann, a vida social é uma mistura de uma zona de lucidez (aquilo que se conhece das pessoas – por meio da tipificação) e uma zona de obscuridade (aquilo que escapa à tipificação).

·         Ambos os sociólogos realizaram importante contribuição também para o conceito de socialização, dividindo-a em duas partes essenciais.

·         Há a chamada socialização primeira, que forja suas primeiras referências na primeira infância, por meio da qual você se torna membro da sociedade, reconhecendo os outros, primeiramente os pais e os membros da família mais próximos.

·         Nesse estágio, ocorre o aprendizado das regras morais e sociais: “não coloque os cotovelos sobre a mesa”, “não bata na coleguinha” etc.

·         A socialização continua após a infância e se estende para a vida inteira; ocorre à medida que as pessoas adquirem novos papéis e pouco a pouco se ajustam à perda dos papéis sociais mais antigos.

·         É o que os autores chamam de socialização secundária, em que ocorre a interiorização das normas dos “submundos”, tais como na escola, sobretudo em estabelecimentos de ensino de nível superior, e no trabalho.

·         A passagem dos antigos papéis dados na socialização primária para os da secundária pode ocorrer de forma mais ou menos harmoniosa.

·         Um adolescente que não consegue entender que o papel de estudante não é o mesmo papel social que o de um trabalhador terá dificuldades no ambiente do trabalho, por exemplo.

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA

  DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (FILME BIOGRÁFICO- 2004) Por: Claudio F Eamos, C@cau “:¬)23/03/2025 Ver parte da vida pretérita do famoso a...